Capítulo 3

Só abria exceção aos domingos. Nessas manhãs, vestia o seu melhor fato, ajeitava uma gravata vistosa e ia para o café ler o jornal. Melhor dizendo: ia para o café com o jornal. O Sr. Clemêncio até fazia tenções de o ler, mas depois… sentado na mesa do café… era mais forte do que ele.

O empregado chamava-lhe a atenção quando o via de pescoço esticado:

– Ó Sr. Clemêncio, passa-se alguma coisa?

– Está tudo bem – esclarecia ele, de jornal aberto.

A verdade é que não tinha vontade de ler. Para quê explorar um mundo cinzento e branco, feito de letras paradas, se podia conhecê-lo em direto, ao vivo e a cores?

Só que um dia, o destino pregou-lhe uma partida. 

Era domingo e, como de costume, o Sr. Clemêncio vestiu-se a rigor. Comprou o jornal e caminhou avidamente até ao seu lugar de eleição daquele dia da semana, já a pensar nas conversas que estaria a perder. Mas assim que abriu a porta do café, uma multidão silenciosa espalhada pelas mesas, na sua maioria com os braços cruzados, mirava-o serenamente.

O Sr. Clemêncio procurou fingir que tudo estava normal e dirigiu-se até à única mesa vazia do café. O ruído dos seus passos soava agora mais estrondoso do que nunca.