Capítulo 5

O Sr. Clemêncio abriu o jornal e procurou concentrar-se nas notícias. Afinal de contas, não havia conversas para escutar.

Mas as palavras que lia pareciam ocas, e o seu cérebro só pensava em contar o número de olhos que o miravam. 

Uma hora e dez minutos depois, duas crianças aproximaram-se do Sr. Clemêncio, acompanhadas da avó.

– Sr. Clemêncio, bom dia! – disse a menina.

– Ouvimos dizer que gosta muito de escrever em cadernos tudo o que se passa com os outros… – disse o menino, num tom acusatório. – Mas hoje queremos oferecer-lhe uma coisa diferente.

A menina estendeu-lhe um caderno azul.

O Sr. Clemêncio analisou o caderno com alguma minúcia.

– Os meninos que me desculpem, mas não me parece diferente – contestou, nitidamente inseguro. 

– Mas é. Ou por outra…vai ser.

As crianças esclareceram tudo. Segundo lhe explicaram, o Sr. Clemêncio passara a vida tão preocupado em olhar para os outros, que se tinha esquecido de olhar para si. 

– Este caderno será só sobre a sua vida. Já que é tão coscuvilheiro, escreva acerca da sua pessoa!

O Sr. Clemêncio sentiu-se ainda mais inseguro, mas a verdade é que gostou da ideia.

Durante um ano, foi visto poucas vezes. Estava em casa, entretido, a escrever sobre si mesmo. Os vizinhos ouviam-no falar, rir, chorar. O entusiasmo do Sr. Clemêncio foi tanto, que, quando o caderno chegou ao fim, ele não resistiu a partilhar a sua história com os vizinhos do bairro, publicando assim uma autobiografia: Clemêncio da Fonseca: De Coscuvilheiro da Vida dos Outros a Coscuvilheiro da Sua Própria Vida. 
Para apresentar o livro, houve cerimónia oficial de lançamento no salão de festas da coletividade. Até o presidente da junta discursou e foram muitos os que deixaram cair uma ou mais lágrimas. No final, uma surpresa aguardava o Sr. Clemêncio.