Saía para comprar o jornal. Gostava muito de ir comprar o jornal. Ter de se levantar da cama e transformar-se num homem limpo e perfumado, escolher a gravata – ele nunca saía sem gravata –, deixar o segundo andar e descer as escadas até à rua, caminhar por breves momentos, dar os bons-dias à senhora do quiosque e pensar no troco.

Enquanto se dirigia para a pastelaria do bairro, parecia já sentir aquele cheirinho do café, aquele aroma quente que conforta o corpo. Depois entrava, sentava-se e abria o jornal.

– Um café, por favor.

Ah!, como era bom estar ali, longe do mundo, a ler as últimas do mundo.

Voltava para casa satisfeito. Não gostava do que tinha lido, mas isso não lhe tirara o perfume, a gravata, o ar fresco da manhã, os bons-dias da senhora do quiosque, o café quente. 

No dia seguinte voltaria a fazer exatamente o mesmo. E seria sempre assim, enquanto as notícias do jornal viessem de longe, tão longe, que não podiam alterar o seu ritual da manhã.