Sempre que apanhava o comboio que a levava para a terra do avô, a Rita sentia que estava a entrar dentro de um brinquedo. O movimento das carruagens dava-lhe a sensação de um perigo confortável; a paisagem que corria lá fora e se desvanecia em menos de um segundo lembrava-lhe o acordar de um sonho; e aquelas pessoas desconhecidas, ali à sua volta, com bagagens de todas as cores e feitios, lembravam-lhe um planeta diferente ou, pelo menos, pessoas diferentes da rua onde vivia.

Por isso é que as férias começavam no exato segundo em que a Rita subia os degraus da carruagem e só terminavam quando deles descia, já no regresso. Aquelas duas viagens de comboio eram o início e o fim. E o tempo vivido entretanto era magia.    

Capitulo 1

Quando é que aprendi a escrever? Não sei exatamente o dia nem a hora, acho impossível haver um dia e uma hora marcados para esta aventura.
Lembro-me de copiar as letras de imprensa que apareciam no jornal, para assim também ter trabalhos de casa e não ficar atrás dos meus irmãos, que eram mais velhos. Lembro-me de ficar fascinada com tudo o que fosse papelaria: lápis de carvão n.º 3, canetas de tinta permanente, cadernos por estrear, dossiês com argolas que faziam muito ruído ao fechar.
Depois fui conhecendo a maneira de as letras se relacionarem entre si, umas sempre prontas a estar perto de todas, outras mais solitárias ou que escolhem a sua companhia com mais cuidado, vá-se lá saber porquê. Na verdade, eu gosto de todas as letras, mas talvez no mundo delas esta escolha faça sentido. Tal como nós nos aproximamos mais de uns colegas da escola do que de outros. 
Foi então que me pus a fazer histórias e a escrever cartas à família por tudo e por nada. Eu já inventava histórias na minha cabeça há muito tempo, mas digo-vos que organizá-las num papel é cá uma sensação… É como se a partir desse momento a história não morresse nunca mais. É deixar gravado o que a nossa imaginação e as palavras nos oferecem naquele preciso instante.
Agora que já tenho 10 anos, vou mudar de escola. O meu mundo vai ficar maior, porque o edifício da escola nova é enorme e lá cabem muitas turmas de muitos anos. Mas esse é o mundo físico. Porque o da imaginação pode até ficar mais pequeno, se eu não lhe der atenção. É que a imaginação é assim mesmo: precisa do nosso tempo e da nossa vontade. E quanto mais nos dedicamos, mais ela cresce e nos leva ao colo para lugares onde nunca estivemos antes.

Continua na quinta-feira, dia 11 de Junho.

Capítulo 8

– Apanhadooooo!!! – gritou o menino Custódio, após uma perseguição que lhe valeu mil voltas pela cidade.

– Rapaz, porque me tratas assim? – O homem mostrava-se genuinamente assustado e surpreendido.

            O menino Custódio, com a inexperiência própria da idade, ficou subitamente sem forças para saltar e agredir o desconhecido. “Tudo estragado”, pensou. Mas era mais forte do que ele.

            – Quem é o senhor?

            – Pergunta antes quem era eu… quem fui eu em tempos. Um mágico a quem foi roubada toda a sua magia, todas as suas poções e experiências, todos os seus estudos e descobertas. E que agora, enquanto começo de novo, numa gruta escondida aqui na floresta, apenas vou à cidade buscar alguma coisa para comer…

– Buscar… quer dizer… roubar! 

– Não posso morrer à fome. Não farias tu o mesmo para sobreviver? – O senhor pôs algum ânimo no rosto. – Um dia recompensarei aqueles a quem fiz mal. Já faltou mais para recuperar os meus poderes e reaver tudo o que o homem da cartola me roubou. 

Ao ouvir isto, o menino Custódio sentiu as suas pernas de sapo a tremer.

Capítulo 6

Resultara! O menino guardava agora dez moedas de ouro em cada um dos seus bolsos e tinha poderes no mínimo… estranhos! Mas era os que havia desejado. Custódio dava saltos semelhantes aos de um sapo e iria realizar o seu sonho de pousar em cada árvore da floresta, junto à sua cidade, onde tantas vezes se refugiava. Ah, saltar de ramo em ramo, ver as flores e saborear os frutos, aproximar-se dos pássaros e de outros animais, viver a floresta da forma que sempre fantasiara e que até àquele momento lhe tinha parecido inalcançável.

Tinha 24 horas.

Mas atenção: nesse espaço de tempo não se podia esquecer de cumprir a promessa que fizera ao senhor da cartola. Custódio teria de atacar fortemente o ladrão que durante a noite aterrorizava a cidade e deixava todos em sobressalto. Como? O plano era simples: largar sobre os olhos do larápio a peçonha, esse líquido venenoso que os sapos segregam. Só assim se poderia impedir o malvado homem de fugir numa correria desalmada, correria essa que até à data tinha impossibilitado qualquer alma – mesmo a alma de um polícia – de o apanhar.

“Vamos por partes”, pensou Custódio. “Agora que o dia está a começar, vou andar na floresta. Quando o Sol se for embora, entrarei em ação na cidade.”  

(Continua na Quinta-feira, 14 de Maio)

Capítulo 4

“Será que resulta? E ainda vou ter muito trabalho pela frente…” pensava, preocupado. “Nos próximos tempos não vou poder engraxar sapatos.”Custódio não se sentia bem. Roubara as moedas da gaveta das poupanças, que a mãe fazia sempre questão de dizer que era intocável. Entregara tudo ao senhor da cartola. Mas isso seria o menos. O pior era a promessa que Custódio fizera àquele senhor que não conhecia e que, pressentia, podia não passar de um pantomineiro.    

(Continua na quinta-feira, 30 de Abril)

Capítulo 2

O senhor continuava a insistir que naquela poção a que chamava mágica estava a resolução de todos os problemas do menino Custódio.

– Eu sou uma criança! As crianças não têm problemas – explicava o menino.

– As crianças não têm problemas? Ora essa! Pensas que eu não sei que há dias em que passas fome, que tens de carregar as malas dos senhores ricos e que por vezes choras no silêncio do teu quarto porque a tua mãe está doente? És o único dos irmãos que ainda não foi à escola e…

– Pronto, pronto, pronto… Já chega! – interrompeu o menino Custódio em voz baixa, enquanto levantava a mão e olhava para os lados.

Capítulo 7

Saíram apressados daquela casa, prometendo voltar.

Deixaram para trás o portão verde sem saber o que dizer uns aos outros e sentaram-se numa pedra grande que oferecia uma vista consoladora naquele fim de tarde, com o Sol a descansar sobre os montes. 

– Dois dias! – desabafou um dos irmãos – Dois dias não é nada…

– Calma. Estamos a lidar com uma sábia. Se ela nos deu dois dias, é porque é possível encontrarmos uma solução nesse espaço de tempo – respondeu outro.

Nisto, um aguaceiro apanhou-os de surpresa. Pingas grossas mas suaves caíram durante uns minutos, e os quatro levaram a cara ao céu, procurando refrescar o corpo e as ideias.

Um arco-íris gigante apareceu do outro lado.

Ergueram-se então num salto, entreolharam-se e partiram em busca do que lhes havia sido pedido.

FIM

Capítulo 5

– Que se passa? – perguntou um dos rapazes, em tom de desabafo.

– Nós não sabemos voar. Assim não podemos alcançar o livro! – informou outro, que era tido como mais pateta.

Fez-se silêncio.

– Aguardava por sete – disse a senhora da biblioteca – Só vejo quatro. Como pensam atravessar as cores do arco-íris e carregar o tesouro? Onde estão as raparigas? E gentes de outras raças? Lamento, mas vamos ter de ficar por aqui.

Os quatro irmãos entreolharam-se. A senhora atirou-lhes com a mensagem.

– Aqui está o que enviei. Resistente à chuva, ao calor, a tudo…

Voltaram a ler. Não havia dúvidas de que tinham falhado. Não se pode dizer que tinha sido com má intenção, mas a verdade é que haviam lido as regras com uma grande dose de distração, daquelas que às vezes permitem ler apenas o que se quer.

– E agora? – perguntaram?

Capítulo 3

Encostaram os nós dos dedos à porta e entreolharam-se os quatro, na expectativa de ver quem daria início à próxima etapa. A respiração ofegante não abrandava: atravessar a ponte movediça não tinha sido fácil e o medo do que agora os esperava ressentia-se no ritmo do coração.

Mas não foi preciso bater. Uma voz surgiu do outro lado:

– Sejam bem-vindos. A porta está aberta.

Entraram. Tudo como tinham imaginado. Iam finalmente conhecê-la e saber o que estava escrito no Grande Livro das Cores.

Capítulo 1

Estavam quase a chegar. Mas depois de tantos dias já nem sobravam forças para comemorar o fim da viagem.

Tinham visto o Sol e a chuva, a neve e o orvalho. Tinham sentido e escutado o vento frio e o vento quente. A música e o silêncio haviam sido companheiros de caminhada.

– Já aconteceu tudo. Agora só falta mesmo entrar. – Foram estas as últimas palavras escutadas antes de se avistar, mesmo no final da estrada de terra, um largo portão verde que prometia ir lá ter.