Capítulo 5

– Que se passa? – perguntou um dos rapazes, em tom de desabafo.

– Nós não sabemos voar. Assim não podemos alcançar o livro! – informou outro, que era tido como mais pateta.

Fez-se silêncio.

– Aguardava por sete – disse a senhora da biblioteca – Só vejo quatro. Como pensam atravessar as cores do arco-íris e carregar o tesouro? Onde estão as raparigas? E gentes de outras raças? Lamento, mas vamos ter de ficar por aqui.

Os quatro irmãos entreolharam-se. A senhora atirou-lhes com a mensagem.

– Aqui está o que enviei. Resistente à chuva, ao calor, a tudo…

Voltaram a ler. Não havia dúvidas de que tinham falhado. Não se pode dizer que tinha sido com má intenção, mas a verdade é que haviam lido as regras com uma grande dose de distração, daquelas que às vezes permitem ler apenas o que se quer.

– E agora? – perguntaram?

Capítulo 3

Encostaram os nós dos dedos à porta e entreolharam-se os quatro, na expectativa de ver quem daria início à próxima etapa. A respiração ofegante não abrandava: atravessar a ponte movediça não tinha sido fácil e o medo do que agora os esperava ressentia-se no ritmo do coração.

Mas não foi preciso bater. Uma voz surgiu do outro lado:

– Sejam bem-vindos. A porta está aberta.

Entraram. Tudo como tinham imaginado. Iam finalmente conhecê-la e saber o que estava escrito no Grande Livro das Cores.

Capítulo 1

Estavam quase a chegar. Mas depois de tantos dias já nem sobravam forças para comemorar o fim da viagem.

Tinham visto o Sol e a chuva, a neve e o orvalho. Tinham sentido e escutado o vento frio e o vento quente. A música e o silêncio haviam sido companheiros de caminhada.

– Já aconteceu tudo. Agora só falta mesmo entrar. – Foram estas as últimas palavras escutadas antes de se avistar, mesmo no final da estrada de terra, um largo portão verde que prometia ir lá ter. 

Capítulo 5

O Sr. Clemêncio abriu o jornal e procurou concentrar-se nas notícias. Afinal de contas, não havia conversas para escutar.

Mas as palavras que lia pareciam ocas, e o seu cérebro só pensava em contar o número de olhos que o miravam. 

Uma hora e dez minutos depois, duas crianças aproximaram-se do Sr. Clemêncio, acompanhadas da avó.

– Sr. Clemêncio, bom dia! – disse a menina.

– Ouvimos dizer que gosta muito de escrever em cadernos tudo o que se passa com os outros… – disse o menino, num tom acusatório. – Mas hoje queremos oferecer-lhe uma coisa diferente.

A menina estendeu-lhe um caderno azul.

O Sr. Clemêncio analisou o caderno com alguma minúcia.

– Os meninos que me desculpem, mas não me parece diferente – contestou, nitidamente inseguro. 

– Mas é. Ou por outra…vai ser.

As crianças esclareceram tudo. Segundo lhe explicaram, o Sr. Clemêncio passara a vida tão preocupado em olhar para os outros, que se tinha esquecido de olhar para si. 

– Este caderno será só sobre a sua vida. Já que é tão coscuvilheiro, escreva acerca da sua pessoa!

O Sr. Clemêncio sentiu-se ainda mais inseguro, mas a verdade é que gostou da ideia.

Durante um ano, foi visto poucas vezes. Estava em casa, entretido, a escrever sobre si mesmo. Os vizinhos ouviam-no falar, rir, chorar. O entusiasmo do Sr. Clemêncio foi tanto, que, quando o caderno chegou ao fim, ele não resistiu a partilhar a sua história com os vizinhos do bairro, publicando assim uma autobiografia: Clemêncio da Fonseca: De Coscuvilheiro da Vida dos Outros a Coscuvilheiro da Sua Própria Vida. 
Para apresentar o livro, houve cerimónia oficial de lançamento no salão de festas da coletividade. Até o presidente da junta discursou e foram muitos os que deixaram cair uma ou mais lágrimas. No final, uma surpresa aguardava o Sr. Clemêncio.

Capítulo 3

Só abria exceção aos domingos. Nessas manhãs, vestia o seu melhor fato, ajeitava uma gravata vistosa e ia para o café ler o jornal. Melhor dizendo: ia para o café com o jornal. O Sr. Clemêncio até fazia tenções de o ler, mas depois… sentado na mesa do café… era mais forte do que ele.

O empregado chamava-lhe a atenção quando o via de pescoço esticado:

– Ó Sr. Clemêncio, passa-se alguma coisa?

– Está tudo bem – esclarecia ele, de jornal aberto.

A verdade é que não tinha vontade de ler. Para quê explorar um mundo cinzento e branco, feito de letras paradas, se podia conhecê-lo em direto, ao vivo e a cores?

Só que um dia, o destino pregou-lhe uma partida. 

Era domingo e, como de costume, o Sr. Clemêncio vestiu-se a rigor. Comprou o jornal e caminhou avidamente até ao seu lugar de eleição daquele dia da semana, já a pensar nas conversas que estaria a perder. Mas assim que abriu a porta do café, uma multidão silenciosa espalhada pelas mesas, na sua maioria com os braços cruzados, mirava-o serenamente.

O Sr. Clemêncio procurou fingir que tudo estava normal e dirigiu-se até à única mesa vazia do café. O ruído dos seus passos soava agora mais estrondoso do que nunca.

Capítulo 1

Espreitava pela janela dezenas de vezes. Em dias mais agitados, até cansava o corpo de tanto ir e voltar do parapeito que dava para a rua principal. Mas era mais forte do que ele. O Sr. Clemêncio tinha nascido bisbilhoteiro e não via nisso mal algum. Autointitulava-se um estudioso do quotidiano das gentes, aliviando deste modo a consciência quando alguém lhe dizia que não era bonito meter o bedelho na vida dos outros.

Depois da reforma, até arranjara um caderno a que dera o pomposo título “Cenas Inesquecíveis dos Dias”. Quando o sol deixava a rua do Sr. Clemêncio, ele largava imediatamente o que estava a fazer – mesmo que fosse o jantar – e sentava-se na mesinha ao canto da sala. Depois, acendia o candeeiro de mola e ficava ali a escrever o que acontecera debaixo do sol e que, no seu entender, era digno de registo. Assim gastava os dias.