Capítulo 1

Espreitava pela janela dezenas de vezes. Em dias mais agitados, até cansava o corpo de tanto ir e voltar do parapeito que dava para a rua principal. Mas era mais forte do que ele. O Sr. Clemêncio tinha nascido bisbilhoteiro e não via nisso mal algum. Autointitulava-se um estudioso do quotidiano das gentes, aliviando deste modo a consciência quando alguém lhe dizia que não era bonito meter o bedelho na vida dos outros.

Depois da reforma, até arranjara um caderno a que dera o pomposo título “Cenas Inesquecíveis dos Dias”. Quando o sol deixava a rua do Sr. Clemêncio, ele largava imediatamente o que estava a fazer – mesmo que fosse o jantar – e sentava-se na mesinha ao canto da sala. Depois, acendia o candeeiro de mola e ficava ali a escrever o que acontecera debaixo do sol e que, no seu entender, era digno de registo. Assim gastava os dias.

Capítulo 3

Só abria exceção aos domingos. Nessas manhãs, vestia o seu melhor fato, ajeitava uma gravata vistosa e ia para o café ler o jornal. Melhor dizendo: ia para o café com o jornal. O Sr. Clemêncio até fazia tenções de o ler, mas depois… sentado na mesa do café… era mais forte do que ele.

O empregado chamava-lhe a atenção quando o via de pescoço esticado:

– Ó Sr. Clemêncio, passa-se alguma coisa?

– Está tudo bem – esclarecia ele, de jornal aberto.

A verdade é que não tinha vontade de ler. Para quê explorar um mundo cinzento e branco, feito de letras paradas, se podia conhecê-lo em direto, ao vivo e a cores?

Só que um dia, o destino pregou-lhe uma partida. 

Era domingo e, como de costume, o Sr. Clemêncio vestiu-se a rigor. Comprou o jornal e caminhou avidamente até ao seu lugar de eleição daquele dia da semana, já a pensar nas conversas que estaria a perder. Mas assim que abriu a porta do café, uma multidão silenciosa espalhada pelas mesas, na sua maioria com os braços cruzados, mirava-o serenamente.

O Sr. Clemêncio procurou fingir que tudo estava normal e dirigiu-se até à única mesa vazia do café. O ruído dos seus passos soava agora mais estrondoso do que nunca.

Capítulo 5

O Sr. Clemêncio abriu o jornal e procurou concentrar-se nas notícias. Afinal de contas, não havia conversas para escutar.

Mas as palavras que lia pareciam ocas, e o seu cérebro só pensava em contar o número de olhos que o miravam. 

Uma hora e dez minutos depois, duas crianças aproximaram-se do Sr. Clemêncio, acompanhadas da avó.

– Sr. Clemêncio, bom dia! – disse a menina.

– Ouvimos dizer que gosta muito de escrever em cadernos tudo o que se passa com os outros… – disse o menino, num tom acusatório. – Mas hoje queremos oferecer-lhe uma coisa diferente.

A menina estendeu-lhe um caderno azul.

O Sr. Clemêncio analisou o caderno com alguma minúcia.

– Os meninos que me desculpem, mas não me parece diferente – contestou, nitidamente inseguro. 

– Mas é. Ou por outra…vai ser.

As crianças esclareceram tudo. Segundo lhe explicaram, o Sr. Clemêncio passara a vida tão preocupado em olhar para os outros, que se tinha esquecido de olhar para si. 

– Este caderno será só sobre a sua vida. Já que é tão coscuvilheiro, escreva acerca da sua pessoa!

O Sr. Clemêncio sentiu-se ainda mais inseguro, mas a verdade é que gostou da ideia.

Durante um ano, foi visto poucas vezes. Estava em casa, entretido, a escrever sobre si mesmo. Os vizinhos ouviam-no falar, rir, chorar. O entusiasmo do Sr. Clemêncio foi tanto, que, quando o caderno chegou ao fim, ele não resistiu a partilhar a sua história com os vizinhos do bairro, publicando assim uma autobiografia: Clemêncio da Fonseca: De Coscuvilheiro da Vida dos Outros a Coscuvilheiro da Sua Própria Vida. 
Para apresentar o livro, houve cerimónia oficial de lançamento no salão de festas da coletividade. Até o presidente da junta discursou e foram muitos os que deixaram cair uma ou mais lágrimas. No final, uma surpresa aguardava o Sr. Clemêncio.