Capítulo 2

O senhor continuava a insistir que naquela poção a que chamava mágica estava a resolução de todos os problemas do menino Custódio.

– Eu sou uma criança! As crianças não têm problemas – explicava o menino.

– As crianças não têm problemas? Ora essa! Pensas que eu não sei que há dias em que passas fome, que tens de carregar as malas dos senhores ricos e que por vezes choras no silêncio do teu quarto porque a tua mãe está doente? És o único dos irmãos que ainda não foi à escola e…

– Pronto, pronto, pronto… Já chega! – interrompeu o menino Custódio em voz baixa, enquanto levantava a mão e olhava para os lados.

Capítulo 4

“Será que resulta? E ainda vou ter muito trabalho pela frente…” pensava, preocupado. “Nos próximos tempos não vou poder engraxar sapatos.”Custódio não se sentia bem. Roubara as moedas da gaveta das poupanças, que a mãe fazia sempre questão de dizer que era intocável. Entregara tudo ao senhor da cartola. Mas isso seria o menos. O pior era a promessa que Custódio fizera àquele senhor que não conhecia e que, pressentia, podia não passar de um pantomineiro.    

(Continua na quinta-feira, 30 de Abril)

Capítulo 6

Resultara! O menino guardava agora dez moedas de ouro em cada um dos seus bolsos e tinha poderes no mínimo… estranhos! Mas era os que havia desejado. Custódio dava saltos semelhantes aos de um sapo e iria realizar o seu sonho de pousar em cada árvore da floresta, junto à sua cidade, onde tantas vezes se refugiava. Ah, saltar de ramo em ramo, ver as flores e saborear os frutos, aproximar-se dos pássaros e de outros animais, viver a floresta da forma que sempre fantasiara e que até àquele momento lhe tinha parecido inalcançável.

Tinha 24 horas.

Mas atenção: nesse espaço de tempo não se podia esquecer de cumprir a promessa que fizera ao senhor da cartola. Custódio teria de atacar fortemente o ladrão que durante a noite aterrorizava a cidade e deixava todos em sobressalto. Como? O plano era simples: largar sobre os olhos do larápio a peçonha, esse líquido venenoso que os sapos segregam. Só assim se poderia impedir o malvado homem de fugir numa correria desalmada, correria essa que até à data tinha impossibilitado qualquer alma – mesmo a alma de um polícia – de o apanhar.

“Vamos por partes”, pensou Custódio. “Agora que o dia está a começar, vou andar na floresta. Quando o Sol se for embora, entrarei em ação na cidade.”  

(Continua na Quinta-feira, 14 de Maio)

Capítulo 8

– Apanhadooooo!!! – gritou o menino Custódio, após uma perseguição que lhe valeu mil voltas pela cidade.

– Rapaz, porque me tratas assim? – O homem mostrava-se genuinamente assustado e surpreendido.

            O menino Custódio, com a inexperiência própria da idade, ficou subitamente sem forças para saltar e agredir o desconhecido. “Tudo estragado”, pensou. Mas era mais forte do que ele.

            – Quem é o senhor?

            – Pergunta antes quem era eu… quem fui eu em tempos. Um mágico a quem foi roubada toda a sua magia, todas as suas poções e experiências, todos os seus estudos e descobertas. E que agora, enquanto começo de novo, numa gruta escondida aqui na floresta, apenas vou à cidade buscar alguma coisa para comer…

– Buscar… quer dizer… roubar! 

– Não posso morrer à fome. Não farias tu o mesmo para sobreviver? – O senhor pôs algum ânimo no rosto. – Um dia recompensarei aqueles a quem fiz mal. Já faltou mais para recuperar os meus poderes e reaver tudo o que o homem da cartola me roubou. 

Ao ouvir isto, o menino Custódio sentiu as suas pernas de sapo a tremer.