Capitulo 1

Quando é que aprendi a escrever? Não sei exatamente o dia nem a hora, acho impossível haver um dia e uma hora marcados para esta aventura.
Lembro-me de copiar as letras de imprensa que apareciam no jornal, para assim também ter trabalhos de casa e não ficar atrás dos meus irmãos, que eram mais velhos. Lembro-me de ficar fascinada com tudo o que fosse papelaria: lápis de carvão n.º 3, canetas de tinta permanente, cadernos por estrear, dossiês com argolas que faziam muito ruído ao fechar.
Depois fui conhecendo a maneira de as letras se relacionarem entre si, umas sempre prontas a estar perto de todas, outras mais solitárias ou que escolhem a sua companhia com mais cuidado, vá-se lá saber porquê. Na verdade, eu gosto de todas as letras, mas talvez no mundo delas esta escolha faça sentido. Tal como nós nos aproximamos mais de uns colegas da escola do que de outros. 
Foi então que me pus a fazer histórias e a escrever cartas à família por tudo e por nada. Eu já inventava histórias na minha cabeça há muito tempo, mas digo-vos que organizá-las num papel é cá uma sensação… É como se a partir desse momento a história não morresse nunca mais. É deixar gravado o que a nossa imaginação e as palavras nos oferecem naquele preciso instante.
Agora que já tenho 10 anos, vou mudar de escola. O meu mundo vai ficar maior, porque o edifício da escola nova é enorme e lá cabem muitas turmas de muitos anos. Mas esse é o mundo físico. Porque o da imaginação pode até ficar mais pequeno, se eu não lhe der atenção. É que a imaginação é assim mesmo: precisa do nosso tempo e da nossa vontade. E quanto mais nos dedicamos, mais ela cresce e nos leva ao colo para lugares onde nunca estivemos antes.

Continua na quinta-feira, dia 11 de Junho.